Cadastro positivo: veja os prós e contras do sistema

Projeto aprovado no Senado ainda precisa de sanção do presidente Bolsonaro

Rosana Siqueira com agências

O cadastro positivo, banco de dados que reúne as informações de crédito dos bons pagadores, deve agora passar a ser automático. A matéria aprovada esta semana no Senado ainda vai ter que ser sancionada, mas já está gerando dúvidas e polêmicas. Do lado contrário, especialistas alegam que o sistema pode expor dados financeiros dos consumidores e prejudicar sua segurança digital. Do lado dos defensores estão os bancos, as empresas de crédito e varejo que vislumbram a possibilidade de tornar o acesso ao crédito mais fácil e com juros menores para consumidores e empresas que honram seus compromissos financeiros.

Bom pagador será beneficiado, diz senadora

Yarima Mecchi / Izabela Jornada

A senadora Simone Tebet (MDB), que participou da aprovação do projeto, afirmou ontem em Campo Grande, que os efeitos do Cadastro Positivo serão vistos sobre a economia local em médio prazo e o bom pagador será o principal impactado pela medida. Somente em Mato Grosso do Sul, a expectativa é que o Cadastro poderá injetar R$ 20 bilhões na economia e possibilitar acesso ao crédito para um contingente adicional de 566 mil consumidores.

“Mais do que a questão de juros bancários, eu acho que (o Cadastro Positivo) tem uma atuação direta na economia do País, na economia local. “É muito simples: quem tem CPF vai ter a sua ficha ali e se eu ganho dois, três salários mínimos e a minha família não tem um cartão de crédito e quer ir lá à mercearia ou à loja do bairro comprar alguma coisa parcelada, eles me cobram juros altos, porque eles têm medo da inadimplência. Mas se ele (comerciante) olha a minha ficha e vê que eu sou uma boa pagadora, que eu tive problema lá no passado e não tenho mais, ele pode me falar: não, faz três cheques pré-datados sem juros. A partir do momento em que o comércio faz isso, ele vende mais, contrata mais e gera mais emprego”, explicou.

Para a senadora, as pessoas não estão tendo noção da importância do cadastro positivo a médio prazo. Ela prevê que,“daqui a alguns meses, nós vamos ver um resultado, para a economia local, no pequeno município, no município de porte médio, nas indústrias”. Em relação à possibilidade de redução de juros pelos bancos por meio do Cadastro, a parlamentar disse acreditar mais num aquecimento da economia do que em diminuição significativa do spread bancário. “É possível diminuir 3%, 4%, 5% do juro hoje de 30 e tantos, chegando a 30%, 29%, 28%. Mas o impacto maior do cadastro positivo é para o bom pagador, sem dúvida.

No banco, no financiamento, principalmente para o micro e pequeno empresário ir buscar empréstimo no banco pode ser que os juros caiam e isso é Importante porque gera emprego”, comentou.

Além disso, avalia a senadora, serviços e instituições como Serasa, SPC e a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas terão em seus sistemas quem é o bom pagador. “O pequenininho, mesmo que ganhe três, quatro salários mínimos e não tem cartão de crédito, mas ele vai poder comprar parcelado, sem esses juros exorbitantes que hoje os grandes magazines, por exemplo, cobram”, finalizou.

Ela acredita que o projeto será sancionado. “Pode ter um item ou outro que por ventura possa ser considerado, mas eu não tenho dúvida da sanção”, finalizou Simone Tebet.

Uso apropriado nos setores de varejo e crédito a medida é vista como positiva mas vai depender das regras claras. Para a economista Daniela Teixeira Dias, do Instituto de Pesquisa da Fecomércio (IPF-MS), a questão é complexa é depende de como serão as regras. “Para os órgãos como o SPC e Serasa é importante porque ele traz notícias de como está a vida das pessoas”, adianta. Para o varejo também ajuda na avaliação do crédito e pode dar mais segurança nas operações. “Hoje a maior parte das pessoas usa o cartão como principal instrumento de crédito, que vai depender do cadastro. Os empresários vão poder saber quão confiável na questão de pagamentos a pessoa é”, conclui.

“O cadastro positivo é uma grande ferramenta já usada em países desenvolvidos. No entanto, ele só vai surtir efeito benéfico se o sistema financeiro o usar de forma apropriada. A ferramenta tem que ser usada para derrubar o spread bancário e quem não se adaptar vai perder mercado”, diz Domingos Monteiro, CEO de empresa que utiliza Inteligência Artificial para mensuração de risco de crédito. Segundo ele, vai ganhar mercado quem souber usar a ferramenta para adequar suas ofertas ao perfil de cada um dos consumidores. “As ofertas têm que ser individualizadas e isso será um desafio para as instituições mais tradicionais”, ressalta.

Ainda há dúvidas se o resultado será realmente a queda do spread bancário. “Há a separação do joio do trigo, mas o trigo pagará a mesma taxa do joio?”, questiona.

Fonte: Correio do Estado