Não há frente ampla sem protagonismo feminino

Somos nós, unidas, que teremos a capacidade de rompermos a outro futuro

VÁRIAS AUTORAS (nomes ao final do texto)

Meninas escrevem cartas de autoestima em oficina da Escola de Liderança no Capão Redondo Marlene Foto: Bergamo / FolhaPress

Quando o hoje presidente da República disse publicamente a uma deputada federal que só “não a estupraria porque ela não merecia”, a violência atingia em cheio a todas as mulheres, de diferentes partidos e ideologias, que constroem a luta política neste país machista e dominado por homens nos diferentes espaços de poder. A frase, ainda repetida com orgulho anos depois a um jornal do Rio Grande do Sul, mostra que Jair Bolsonaro construiu a sua ascensão desde cedo buscando atacar as vozes femininas que o denunciavam e que já sabiam, desde então, o que ele representava.

Hoje, entre as tragédias desse governo, em meio às 600 mil mortes de Covid-19 e à brutal crise social, percebe-se que as investidas contra os direitos das mulheres continuam fortes. Nos últimos dias, o covarde veto presidencial à distribuição de absorventes a mulheres brasileiras em situação de vulnerabilidade, no projeto de lei 4.698/19, por exemplo. Enquanto a situação desumana da pobreza menstrual segue a envergonhar o Brasil, seguimos com um governo conhecido pela sua ofensiva contra nossos direitos.

Porém, ao passo que o bolsonarismo e sua política da misoginia continuam iguais, causa desânimo avaliar que, na construção da oposição e do resgate democrático, sejam ainda tão poucos os espaços de protagonismo feminino. São quase todos homens os que aparecem a conduzir esse movimento, os que opinam e formam opinião.

Além disso, recentemente, o calor das críticas e questionamentos a figuras públicas nas alianças e articulações da luta política parece que está cada vez mais agressivo quando se trata das posições de uma mulher. Na construção das manifestações contrárias ao governo federal, que reuniram da esquerda à direita, não foram isoladas as ofensas de cunho sexualameaças de violência e ataques pessoais desrespeitosos às mulheres envolvidas.

No ano de 2018, as mulheres foram protagonistas das maiores manifestações populares de denúncia e resistência ao projeto político que está aí. O movimento do #EleNão levou para as ruas uma multidão de mulheres que compreendiam a centralidade feminina para a defesa do Brasil e das vidas que aqui estão. Somos a maioria da população. Somos também a maioria do eleitorado. Somos chefes de família em muitos lares, líderes comunitárias, estudantes, trabalhadoras, empreendedoras, profissionais da saúde, representantes políticas. Somos muitas.

crise da Covid-19, que já vitimou tantas brasileiras, também ajudou a piorar a vida de outras que lidam com os efeitos do colapso econômico, com o aumento da violência doméstica, o excesso de trabalho, as insuficientes políticas de saúde e proteção para a mulher. E somos nós que teremos a capacidade de, unidas, rompermos a um outro futuro. Ocupemos nosso espaço. Elas sim, pelo Brasil.

Bruna Brelaz
Presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes)

Isa Penna
Deputada estadual (PSOL-SP)

Simone Tebet
Senadora (MDB-MS)

Tabata Amaral
Deputada federal (PSB-SP)

Fonte: Folha de São Paulo

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